Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate.
De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.


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segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Hibernanços

Nem toda a hibernação será pecado, estou certo. Nem todo o parar será empurrão e apito, falta e cartão amarelo, penalty passível de desconto de tempo ou terminal desclassificação. Afinal que porra de corrida é esta, se me é permitida a questão? Eu cá até fiz os mínimos, ultrapassei, pontuei, classifiquei, embasbaquei, improvisei e até hilariei, se é que existe o verbo. Depois acabei. Pronto. E então?

Sou um rapaz completo, insurrecto, sem tecto, ambirecto, neto, não anacleto, predilecto e um prodígio de incumprimento na exacta medida do rigor pré programado com milénios de antecedência. Sou uma coisa e o contrário dessa coisa, outro prodígio ou nem tanto, já que todo o universo é feito de equilíbrio entre contrários, bem e mal, macho e fêmea, certo e errado, Yin e Yang ou o branco e preto de um esforço inglório de perfeição que se acaba em si próprio no limitado parir do cinza eterno que é a entediante existência humana. Eu cá sou isso e o resto, sou o aquilo e o aqueloutro, o outrossim e o no entanto, um enfim, sempre um encanto, um portento e um portanto, só talvez e sem porquês. Não vês? Como é que não vês, nem só uma vez, só uma vez? Eu sou assim e sou assado, sou frito ao sol de todas as primaveras passadas, cozido no banho maria das minhas perdidas convicções, fatiado com requintes e servido às postas finas, sem tempero nem acompanhamento, para evitar riscos de manifesta indigestão nos indígenas que se chegam sorrateiros ao cheiro do repasto.

Lembra-te. Eu sou eu e sou tu se o eu te quiser muito e o tu se distrair na passada ou se o tu tanto me quiser que o eu não tenha palavrinha a piar neste gorjeio agora a dois. Eu sou raio e sou trovão, luz e barulho, mostly, incêndio e fogo fátuo, tragédia e incidente sem perigosidade de maior. Mas sempre um risco, sempre, permanente e manifesto, de queimadura do quinto grau elevado à décima potência de toda a nossa infinita impotência para lidar com esta coisa estranha e merdosa a que tão pomposa e despropositadamente chamam vida. Por isso hiberno, de vez em quando.

Sobretudo no Natal.