Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate.
De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

A Casa

Hoje, para mim, Daniel de Sá escancara a alma, abrindo uma nesga da porta dos fundos. «Meu caro Rui: Não sei se isto é um poema. Visto, pelo menos parece; lido, desconfio. Mas não tenhas pena. Apesar do dito, era a casa mais concorrida de Santana, em Santa Maria.» Eu, caladinho, só publico. Nem um pio.


Em baixo: "A Casa".
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá.


Chamávamos-lhe casa.

Era feita de buracos, pedras negras e telhas.

O vento e a chuva vigilavam o nosso sono,

mais um Menino Jesus nuzinho,

só com um retalho

de fita dourada ao pescoço

como faixa de campeão.

Meu Pai pusera-o de guarda

debaixo de uma trave que desistira

de segurar o tecto.

Partira-se de velha e de cansaço.

"Ele que a aguente se não quiser levar com ela na cabeça",

disse meu Pai, passando procuração

sem notário nem papel selado.

O Menino Jesus nunca levou

com a trave na cabeça.

Nem nenhum de nós.

Talvez porque Ele fosse nosso irmão.

3 comentários:

maya disse...

Oh Daniel,ilustra, e bem, ser bem verdade que o bom humor tem sempre inspiração divina.

samuel disse...

E sabes que mais? Andei a ler posts abaixo e posts acima e estou como como tu: bardamerda I, II e III, sim senhor!
Escusava era de resolvel largar este comentário merdoso aqui no post do (efectivamente) poema, sobre o qual não digo nem uma palavra, que é para não estragar...

Daniel de Sá disse...

Digo eu, amiga Maya e amigo Samuel: vocês teriam gostado da passagem do ano na nossa casa, com cantigas ao Menino e bailhos furados toda a noite, apesar de o espaçoo ser demasiado apertado.
Um par de abraços.