Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate.
De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.


segunda-feira, 17 de março de 2008

Duas garrafas de Macieira (roubadas)

O meu amigo Daniel de Sá escreve no Aspirina B, como é sabido. É ouro da casa, ela própria de luxo. Mas, de vez em quando, Daniel publica também por aqui colaboração generosa e que nos encanta, a mim e aos passantes com ou sem cartão de residência. Muitos desses são açorianos, tal como eu e tal como o Daniel. Pois foi a pensar em todos eles - em todos nós, açorianos - que esta noite fui ao galinheiro aspirínico e pilhei esta galinha gorda para a janta cá da malta. Estava por lá à vista, uma entre várias; olhei para um lado, olhei para o outro, não vi ninguém: zzzut. Ora sirvam-se, se fazem favor, que este é um fantástico documento da oralidade da nossa terra. Raro, precioso. Lembrem-me de agradecer ao Daniel, quando o vir.

Em baixo: "Duas garrafas de Macieira"
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá


Olhe qu’ê gosto munto do João Cravalho, aquilo nã era partida qu’ele me fezesse. A gente só pode levar duas garrafas de bebida, dizem qu’a lei nã permete nem sequer essas duas, mas eles fechim os olhos s’a gente nã leva más que duas. Quer-se dezê que eu levê aquelas duas e nã podia levar más ninua. Uma era pra ofrecer ó mê doutor, um belo home, que até fala uma nisquinha de pertuguês, e tá sempre numa ipequeia comigo, quer qu’ê largue a bebida, mas, mê rico amigo, um home bebe desde o breço, nã há modos de largar, nã le parece? Isto nã é mintira ninua, era cma todos os outros pitchenos do mê tempo, mal davam um grito as mãs pansavam qu’era dôs de barriga, ala dar-les licô de esprite de canela, a gente ficava era bêbedos, coutadinhos, ó dispous, já más maorzinhos, era sopas de cavalo cansado, sabe isto o que é, o sê pai tamam dava às mulas uma garrafa de vim e um pã trigue, antes da viage da cedade prà Maia, sete léguas aluídas por aí adiante, entanse pra subir a Croa da Mata, mas más principalmente o Coucinho do Porto Formoso, aqui os carroceros tinham de metê a giga nos varales da carroça pra dar uma ajuda às bestas. Nos Calços, a camineta, qu’era a cravão, nã subia, os passageros tinham de descer e dar uma ajuda a impurrar, o malero ponhava uma pedra mal ela subia uma becadinho, os homes tomavam folgo e ala outro impurrãzinho. E cando era pra sair aqui da Maia, o malero ia aí plas quatro da manhã acender a caldera, despous a camineta tomava balanço pra pegar pla rua da igreja abaxo, se não pegava tava lá em baxo uma junta de bous pra a levar pra riba até à igreja, e lá ia ela por ali abaxo até pegar. E no Coucinho do Porto tava sempre outra junta.
Pous, fu ê munto prezado ofrecer uma garrafinha ó mê doutor, nem faz ideia cm’aquele home tratou a minha mulher, qu’ela morrê fou porque teve de sê, era uma santa, o que penou comigo só Dês sabe e ê tamam. É por isso que agora que tou viúve e na ritaia venho cá más vezes, mas esses coriscos pregam-me cada partida qu’ê nunca m’alembro de ter feto igual a outros, e inda menos a eles, mês ricos amigos. Mas esta fou ideia do João Cravalho, que se ri cm’o demoino cando le conté, e ê tolo inda le fu contar o que m’acontecê. Pous segue-se que cando ê incontré o doutô, despous de le dar a garrafinha, era de Macieira, tava à espera qu’ele me fezesse um elogio, qu’aquilo vendo era mesmo Macieira, eles fezeram a cousa munto bem feta, era tal qual. Um elogio, isso é qu’era bum! Cal-te-cá elogio! Sabe o qu’ele me disse? Os coriscos tinham botado era chá nas garrafas, qu’ê despous provê a outra, que tinha na ideia ofrecê-la a outra pessoa amiga. O doutor ri-se e disse-me, ele fala uma nisquinha de pertuguês, já le disse, “Ó senhor Franco, a aguardente na sua terra é munto fraquinha.”

4 comentários:

A. G. C. disse...

Ê tamam quer agradecê ó sô Danier, e ô sô Ru, más ainda ó sô Franco pla outra garrofa de maciera quê mamê más mê compodre.
Joam Cravalhe

Anónimo disse...

Eu li, gostei. Estas coisas acontecem de verdade e há quem as conte desta maneira ao vivo e a cores e a rir pelo meio. E no fim!
lenor

Daniel de Sá disse...

a.g.c.
Por acaso o João Carvalho já morreu. Era bom rapaz, mas bebeu mais do que o fígado aguentou. Tal como o Franco. Ambos deveriam ter-se dado mais ao chá do que à Macieira.
Leonor, como já percebeste, a história das garrafas (como tudo o mais) é verdadeira.

Alfredo Gago da Câmara disse...

Daniel, é um facto que o chá certamente, neste caso, lhes prolongaria o tempo de viver, mas foi sem dúvida a macieira lhes deu a graça de um registo que nem todos se orgulham de ter.
Rui, tás a ler? Como já cá tens muitos registos, segue lá os
conselhos do velho amigo Daniel. Bebe mais cházinho, mas não daquele que vem da Escócia, só o da gorreana, tá? Para não ficares com mau fígado.
Abraço