Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate.
De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.


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terça-feira, 20 de novembro de 2007

Apelo desesperado

Amigos, estou em sarilhos. A bem dizer é o costume, uma porra antiga, mas desta vez a coisa é séria e eu preciso da vossa ajuda. Passo a explicar. Meteu-se-me na cabeça ir viver para o campo, o que é normal e comum. Quis um sítio onde não chegasse o 24Horas mais o Carlos Castro, o que é natural e compreensível. A terra em Portugal está pela hora da morte, o que é estranho já que andamos todos tesos, mas pronto. Pensei na Argentina. É a pátria de Maradona, o que significa que a mão de Deus está por perto e funciona. Cristina Krishner é Presidente da República e é bem jeitosa, o que não resolve mas ajuda, para quem vem de cavacos como eu. Decidi-me. Argentina com ele.

Vi uma casita jeitosa em Olivares de San Nicolás, província de Córdoba, a uns 700 quilómetros a Noroeste de Buenos Aires. É uma localidade onde vivem cerca de 800 pessoas e que ocupa uns 20 hectares de um campo de 2.216 hectares, a maioria deles com plantações de oliveiras. Tem uma igreja, um tribunal, um destacamento policial, uma escola, um consultório médico, algumas lojas e as casas de habitação. Uma delas a dos meus sonhos, com quintalinho e tudo. Estava o negócio bem encaminhado quando soube a notícia, hoje de manhã.

Acontece então que ontem o juiz argentino Carlos Molina Portela fixou para 18 de Dezembro próximo a data do leilão da minha nova e pequena localidade, que vai ser vendida, toda ela e nessa data, para que o Estado possa cobrar as dividas que têm os donos das terras onde a povoação foi erigida. Sei que os meus futuros vizinhos já pediram à justiça que a superfície ocupada pela localidade ficasse excluída do leilão, e que a questão deverá ser resolvida num tribunal superior. O Dr. Eduardo De Luca, o advogado que nos representa, disse que os habitantes de Olivares de San Nicolás apelaram a tratados sobre direitos humanos para impedir o leilão e que já se ofereceram para pagar o valor dos 20 hectares que ocupa a localidade. Mas os senhores sabem como estas coisas são, cada vez que uma igreja, um tribunal, um destacamento policial, uma escola, um consultório médico, lojas, casas e ruas com esquinas e tudo vão a leilão em sessão pública, aparece sempre quem queira comprar e eu estou preocupado, confesso.

Não é a perspectiva de não conseguir a minha casita lá em Olivares que me incomoda. Tenho sempre Gondomar, conheço o Major e temos árbitros amigos. A questão é outra e bem mais grave. Vamos supor que tenho lá por Olivares um problemazito qualquer daqui até 18 de Dezembro. Ainda é tempo, caramba, tudo pode acontecer. Com o pé que eu tenho para a asneira posso ir preso, até, vejam o Bibi e o Dr. Paulo Pedroso que também foram e de certeza não fizeram nada. Pode acontecer. Ora se chega 18 de Dezembro e eu estou de cana, se a cela é vendida junto com o resto do destacamento policial e se o tribunal é comprado por alguém que more longe, os senhores querem-me explicar como é que eu saio dali sem ser por licitação ou ajuste directo? Daí o pedido, a súplica, a esmola que vos imponho. Sou bom rapaz, que diabo! Salvem-me. Comprem-me.