Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate.
De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.


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sexta-feira, 14 de março de 2008

Um ministro de raça perigosa

Nasci num país estranho, eu sei. Mas adoro a minha terra e, digo sem hesitar e depois de algum mundo corrido, este é o melhor país que eu conheço para se viver. O que não impede, de vez em quando, que me salte a tampa com aquilo que vejo acontecer neste Portugal dos tristes como Jaime Silva, ministro socrático da Agricultura, que hoje anunciou querer assinar, já na próxima semana, um despacho proibindo a importação, reprodução e criação de cães de sete raças consideradas perigosas e de todos aqueles que resultem do cruzamento de animais destas raças. Vai mais longe ainda a sanha legisladora do despachante Silva. O senhor Ministro da Agricultura anunciou também que foi solicitado (a quem, não disse) um estudo sobre as raças consideradas de risco, nomeadamente Pit Bull, Rottweiler, cão de fila brasileiro, dogue argentino, Staffordshire Terrier americano, Staffordshire Bull Terrier e Toza Inu, estando em preparação um despacho que obrigará os donos a procederem à sua esterilização, no prazo de dois meses. Exactamente, leu bem: esterilização, dois meses. Para a definitiva extinção destas raças no nosso país, por decisão iluminada do senhor Ministro da Agricultura.

Jaime Silva explicou que esta decisão se prende com o histórico de acidentes «gravíssimos» com estes cães que têm vindo a ocorrer em Portugal. Em declarações à TSF, o ministro da Agricultura admitiu não gostar de medidas «drásticas» de proibições, sublinhando, no entanto, tratar-se de casos que «impõem estas decisões». Ou seja: incapaz de regular com sensatez e objectividade as condições neessárias e suficientes para a sobrevivência destes animais, este ministro iluminado propõe-se tomar medidas para extinguir estas raças no nosso país, salvando assim Portugal destas ameaças que, espera-se, possam continuar a existir noutros países onde não existam imbecis deste calibre em lugares de acesso à feitura de leis como esta.

Recorde-se que a lei que estabelece o regime sobre animais perigosos, de resto contestada desde o início por todas as entidades e associações do sector, com natural destaque para o Clube Português de Canicultura que contesta até a selecção das raças consideradas perigosas, foi aprovada em Agosto do ano passado, sem que fossem ouvidos os especialistas na matéria, mas ainda não se encontra regulamentada, o que já foi alvo de crítica pelo PCP, CDS-PP e Bloco de Esquerda (BE), que acusam mesmo o Governo de desleixo. Eu não vou tão longe na crítica, não me passa pela cabeça chamar desleixado ao senhor ministro da Agricultura. Nem tampouco chamar-lhe nabo, cedendo à tentação da piada fácil. Não é hora de piadas, face a declarações como estas feitas por este ministro de raça perigosa. Não há cães perigosos, tal como não há ministros perigosos; existem, isso sim, donos perigosos e gente estúpida e incompetente. A intenção legislativa de Jaime Silva é politicamente autista, malformada de raiz e socialmente criminosa. E vem confirmar a suspeita antiga de que este senhor é, enquanto ministro, uma besta. E, enquanto ser humano, um animal.