Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate.
De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.


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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Tantos, já?

Lembro-me dela antes de todas as lembranças. Do quente, do fofo, do seguro. Da sua beleza e juventude, do seu sorriso, da sua figura altiva e elegante à porta da minha escola. E da vaidade que eu tinha em que os outros vissem como ela era linda, linda. E minha, só minha.

Lembro-me das broncas, das festas, das zangas, das alegrias, das ciumeiras, dos risos e das lágrimas que marcaram quase cinquenta anos de vidas próximas, demasiado próximas, talvez. Para depois me esquecer de tudo, até do mundo e das horas, sempre que ainda hoje ela sorri para mim.

É a única pessoa do mundo que o consegue, sem querer. Chega e eu já não sei onde pôr as mãos, nem como estar, nem que mais fazer para agradar e a merecer, proeza que nunca conseguirei. Fosse eu cãozito e abanaria o rabo por uma festa na cabeça, ou por um osso de carinho, até, mesmo atirado de longe, para eu roer na minha solidão sem ela.

Continua doce, altiva e elegante. Linda, sempre. Chata, mais. Faz hoje setenta anos, a minha rosa. E rosa há só uma, claro, já se sabe.

Até porque ninguém aguentaria duas, convenhamos.