Lembro-me dela antes de todas as lembranças. Do quente, do fofo, do seguro. Da sua beleza e juventude, do seu sorriso, da sua figura altiva e elegante à porta da minha escola. E da vaidade que eu tinha em que os outros vissem como ela era linda, linda. E minha, só minha.Lembro-me das broncas, das festas, das zangas, das alegrias, das ciumeiras, dos risos e das lágrimas que marcaram quase cinquenta anos de vidas próximas, demasiado próximas, talvez. Para depois me esquecer de tudo, até do mundo e das horas, sempre que ainda hoje ela sorri para mim.
É a única pessoa do mundo que o consegue, sem querer. Chega e eu já não sei onde pôr as mãos, nem como estar, nem que mais fazer para agradar e a merecer, proeza que nunca conseguirei. Fosse eu cãozito e abanaria o rabo por uma festa na cabeça, ou por um osso de carinho, até, mesmo atirado de longe, para eu roer na minha solidão sem ela.
Continua doce, altiva e elegante. Linda, sempre. Chata, mais. Faz hoje setenta anos, a minha rosa. E rosa há só uma, claro, já se sabe.
Até porque ninguém aguentaria duas, convenhamos.