
Chamava-se 'Tudo por dinheiro' e era isso mesmo. Tudo por dinheiro. O que é que você está disposto a fazer por dinheiro? Uma hora disto, gravado. Sílvio escolhia uma rua, praça, um jardim. E interpelava as pessoas que passavam com uma mão cheia de notas. "Você está disposto a fazer isto ou não?", perguntava Sílvio. E as notas iam saindo a cada negativa. "E agora?". Mais notas ainda se era não e mais e mais, até à esmagadora maioria de sims. Eu juro que vi gente comer merda, ipso factum. E tomar banho em fontes públicas, vestida e calçada, dançar e zurrar na calçada. Vi tirar a roupa, gatinhar e ladrar, toda a galeria de ilustrações populuchas tiradas da imensa e perversa imaginação de Sílvio Santos, génio televisivo e um dos maiores intrujões da comunicação mundial. E todos sorriam no fim, agradecendo e dizendo adeus para a camera, abraçados ao sorriso cintilante do patrãozinho.

É público e sabido que a série 'Vidas Reais' terminou por comum desacordo entre mim e a produção do programa. Razões várias desgastaram uma relação que - só o saberá quem faz destas vidas, atrás ou à frente das cameras - foi muito intensa e muito tensa também, coisa que faz parte do próprio conceito de televisão em directo. Passaram dois anos sobre o final da série e nunca falei publicamente do assunto, exactamente por entender que não havia assunto para falar. Hoje, ao ler este post sobre este caso, entendi que era tempo de comentar o fenómeno 'Vidas Reais', mais que o programa em si.
"O Diário de Patrícia" é um reality show da Antena 3 espanhola que é uma mistura de 'Fiel ou Infiel' e 'Ponto de Encontro'. Svetlana era uma jovem russa que aceitou ir ao programa para conhecer um homem que lhe propusesse casamento. Sem lhe dizer, a produção do programa aceitou a candidatura do ex-noivo de Svetlana, que depois de cumprir onze meses de cadeia por maus tratos infligidos e denunciados pela própria, foi ao 'Diário de Patrícia' ajoelhar, tirar do bolso o anel e propor novamente casamento à sua ex-vítima. Vá lá perceber-se porquê, a jovem disse que não. Vá lá perceber-se porquê, o homem matou Svetlana dias depois, ainda no eco da sua pública vergonha.

Ver o 'Fiel ou Infiel', o 'Você na TV', a 'Fátima Lopes' ou as 'Tardes de Júlia', é ver em acção o mesmo exacto princípio que faz o 'Prós e Contras'. Sem tirar nem pôr. Aqui d'el rei, dirão as sumidades do costume, grande disparate, que programas tão diferentes! Deixem-se disso. E das caganças de quem até nunca viu o Goucha, nunca, talvez só uma vez ou duas, taltrês. Claro que sim. Gente séria não gosta de peixeirada. É por isso que o 'Porque no te callas' do rei de Espanha não é já um videoclip de sucesso no you tube. Na produção televisiva da era moderna, 'tele-espectador' é a tradução de sentido exacto para 'voyeur'. E a 'peixeirada' para as classes C e D é a 'polémica' para as classes A e B. Este é o abc do produtor e a regra primeira do criativo de televisão, que precisam de trabalhar como toda a gente. Daí ser a regra de ouro do director de programas.

Por isso Sílvio Santos, meu ex-patrãozinho e ainda dono do maior império de televisão do Brasil, o SBT, hoje com centenas de pequenas emissoras de rádio e TV em cadeia, apareceu ainda recentemente em todos os meios de comunicação, em directo da varanda do seu apartamento de Miami, sentado numa cadeira de rodas, ar frágil, manta sobre os joelhos e côr amarelada no rosto. Veio informar o mundo que estava em estado terminal, com um cancro, e que por isso iria vender o SBT. As lágrimas caíram e as acções do grupo subiram. E quando o mundo soube que era mentira, muito tempo depois e pela voz do próprio, entre outras, Sílvio resolveu o assunto com a risada gutural e aquele mesmo sorriso cintilante com que cai num aquário em directo, ou manda comer merda por dinheiro no seu programa de domingo. E não é que acabou tudo numa grande salva de palmas?
É este o grande encanto da televisão, o fermento das vidas reais, a atracção do número mágico e o vírus que matou Svetlana em Espanha. É o básico que vende, quanto mais primário melhor, que o boçal é cultural e é barato. Dá milhões. Ninguém quer qualidade, que é difícil e cara. Custa milhões. Por isso nada se inventa, tudo se decalca, o mau em cima do pior. A morte de Svetlana em Espanha é a morte das vidas reais, fiéis, infiéis e teledifundidas, de programa em programa, de telejornal em telejornal, até ao colapso final de toda a decência numa qualquer megaprodução em directo do inferno das nossas piores expectativas. Mais um campeão de audiências, naturalmente.
6 comentários:
Diga-me lá que sempre quis saber - aquilo era mesmo a sério?
No que me diz respeito, que vejo cada vez menos televisão, sobretudo os canais portugueses, e não sou fã da Oprah ou do Dr. Phil, e nem me lembro sequer do Vidas Reais, já me dava por muito satisfeita se os canais públicos de televisão resistissem à tentação de aferirem qualidade com audiências, serviço público com estandardização de conteúdos.
"Ninguém quer qualidade, que é difícil e cara". O canal de televisão privado que tem na sua programação semanal, a transmissão de uma peça de teatro(??) dos moranguitos açucarados ou dos Hits de La Féria, não investirá mais se optar por "O Cerejal". Em tempos que já lá vão, a RTP fazia-o.
Deixando de lado o entertenimento: O que dizer de tele-jornais com 1h30m com notícias de faca e alguidar? É o que as massas querem, do que gostam?
De facto, quanto mais as anestesiarem,menos irão questionar.
pearl,
Dou por mim a não concordar consigo na questão das massas sossegadinhas e caladas com tantas anestesias. É que sabe, desde o tempo do Pão e Circo que qualquer poder que se preze tenta anestesiar a tal da massa. Lembra-se do trinómio do futebol, fado e fátima? Sim, claro que se continuam a atirar uns croissants à populaça para ela acalmar os urros, mas a chatice é que agora massa que se preze descobriu os microfones e por baixinho que guinche há sempre uma mãozita disponível para lhe aumentar o som e vender em prime time.
Por acaso acho que foi a SIC, com uma coisa chamada "Praça Pública", que começou a levar as câmaras e os micros ao "povo". Foi de tal forma diferente, a noticia saiu do gabinete e passou para o fontanário, que cada vez que aparecia uma câmara, fosse de quem fosse, era da SIC com certeza. E olhe que sei do que falo.
Acho que foi assim que se percebeu o que era isso do 4º poder e de como era mesmo o mais fácil (e este "fácil" é no sentido de p... mesmo) para quem não tinha outro. Digamos que se juntou a fome com a vontade de comer.
As massas não questionam? Como acha que se fazem telejornais de 1h30m? Questionam sim e chamam logo a televisão que é para não haver dúvidas nas respostas. Se as questões podem ser elevadas ao olímpo isso já é outro assunto, mas talvez se tenha de começar por algum lado.
(o comentário que realmente me apetece fazer a este vidas reais talvez venha mais tarde, que ainda estou a cozinhá-lo...)
O vidas reais era menos mau que os outros programas que mencionou, mas o apresentador era um PÃÃÃOOO !!! Dava gosto vê-lo ... Lavava-se as vistas, pelo menos !!!
d.maria,
como é que se chamava o programa?
pearl,
percebo o seu ponto. mas esses tempos a que se refere quando a rtp faria 'o cerejal' eram tempos a preto e branco num mundo que já era a cores e a gente não sabia. e isso também não era grande coisa, convenhamos. esses anos que vivi no rio foram de absoluto deslumbre com um tipo de audiovisual que eu só sabia que existia porque o via fora do meu país, onde um satélite ainda era notícia de primeira página.
teresa,
não deixe isso ao lume que se queima. venha ele.
pãonónimo,
mas, mas... por quem sois, por quem sois...
O prometido comentário ou uma baba de camelo?? Estou dividida.... que faço? Um, dó, li, tá...
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