Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate.
De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.


sexta-feira, 19 de outubro de 2007

O sabonete ASAE

Garoto sem disciplina é um sério candidato ao disparate. Não se lhes pode dar corda a mais nem corda a menos, o velho princípio do sabonete, se apertamos de menos ele cai, se apertamos de mais ele salta-nos da mão. É por isso que a educação é uma tarefa tão complicada, contrariando a sabedoria popular que diz que tudo se cria, de uma maneira ou de outra.

Há dias tive oportunidade de ver a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) em acção. Nunca tinha visto, confesso, embora já tivesse ouvido relatos que sempre julguei inquinados de parcialidade. Desta vez pude ver, ao vivo e a cores, o retrato da Chicago do meu imaginário, Al Capone estático, com a garfada a meio ao ser surpreendido pela entrada fulgurante de Elliot Ness e os seus homens, com muitas fardas atrás para estabelecer o perímetro e flagrar as infracções. É mais ou menos assim a chegada da ASAE para uma operação de fiscalização.


Amante convicto de um bom queijo de cabra, painho ou cacholeira caseira, a cartilha moderna da fiscalização das actividades económicas faz-me naturalmente torcer o nariz. Acho um exagero despropositado, por exemplo, que um simples galheteiro seja agora peça proibida nos restaurantes por razões de 'qualidade', e a mesa da minha pescada cozida tenha de ser enfeitada com duas garrafas, azeite e vinagre. Nada do produtor, tudo do supermercado. As multas são pesadas e os fiscais têm mão leve no redigir dos autos. E fecham as casas. E os refeitórios dos hospitais. E as peixarias, cafés, restaurantes, discotecas, tudo e mais alguma coisa que não cumpra todos os preceitos legais. A acção da ASAE está na ordem do dia.


Eu cá lembro-me de Portugal a preto e branco, ainda. Era novo mas não era parvo, via e ouvia as corriqueirices do dia a dia aos outros, na escola, no café e nas conversas de rua. O envelope do fiscal, fosse que fiscal fosse, era uma instituição parecida à Rotunda do Marquês, que não se atravessa em frente, contorna-se e com cuidado. Salvaguardando algumas excepções, para todas as infracções havia um jeitinho possível. Se não fosse pela esquerda era pela direita, não era pela prima era pelo tio da vizinha de cima. A ordem natural das coisas era pai, mãe e padrinho, depois vinha o resto da família e amigos. E se nos juntávamos todos num restaurante, caro ou barato, havia um sub-entendimento geral que as casas de banho eram para evitar. O lógico ao tempo era que não estivessem limpas. A bela bifana trincada à porta da tasca, pingava no passeio todo um universo de gastroconjecturas em cada gota de gordura. E um copo mais ou menos lavado agradecia-se, que os outros estariam piores, em princípio.


Caricaturar a acção presente da ASAE é um dever cívico, na minha opinião, em prol da sobrevivência de pitéus e costumes que estão agora mais ameaçados que o lince da Malcata. O fervor paladino do Estado em certas questões é reconhecidamente patético, aqui e ali. E o ser humano, quando investido de poder (sobretudo se pequenos, um e outro) pode de facto tornar-se perigoso. Mas a verdade é que se nos sentarmos hoje a discutir este ou qualquer assunto num qualquer estabelecimento português e tivermos que ir à casa de banho, a esmagadora maioria das probabilidades diz-nos que iremos encontar um local asseado e em condições. E este é apenas um exemplo fácil. Difícil é estar internado um mês num hospital e descobrir ao 30º dia que a cozinha foi fechada porque havia lá uns bichos estranhos.


Entre-se nas cozinhas e armazéns, lojas, fábricas, talhos ou escolas e o que podemos encontrar nos dias de hoje é o retrato de Portugal a cores. Não mais a preto e branco, miserabilista e atrasado, venerando e obrigado, como quando lhe serviam merda e o país comia e agradecia. De cada vez que quero ir a um sítio onde não se fuma, exconjuro a ASAE, o governo e cada um dos deputados de S.Bento. E George Bush, também, não só por hábito como por uma questão de higiene. Mas vejo-me obrigado a reconhecer que não se pode gritar 'aqui d'el rei' porque ninguém faz nada e 'd'el rei aqui!' porque alguém faz alguma coisa. Rendo-me à evidência: a ASAE funciona. Mas tem que ser assim?

Garoto sem disciplina é um sério candidato ao disparate. Não se lhes pode dar corda a mais nem corda a menos, o velho princípio do sabonete, se apertamos de menos ele cai, se apertamos de mais ele salta-nos da mão. É por isso que a educação é uma tarefa tão complicada, contrariando a sabedoria popular que diz que tudo se cria, de uma maneira ou de outra.


RVN

4 comentários:

Anónimo disse...

Adorei o texto!
necessário(?) será repetir: Tem talento, meu caro Rui Vasco Neto, TEM TALENTO!

Rui Vasco Neto disse...

fico feliz com a notícia, acredite.
fosse assinada, então, e eu ganhava o dia.
mas gadinho na mesma.

rvn

Anónimo disse...

Excelente, meu caro.
Que dirá a isto o autor do seu necrológio, xurnalista Castro?

Rui Vasco Neto disse...

disparates, provavelmente.
já o viu dizer outra coisa?