
Voou-me a memória para uma das reportagens mais doridas que fiz na vida. Não, não me enganei, não quis dizer dolorosas, que se o fosse não estaria tudo igual hoje em dia. Como está. Como tem que estar, se calhar. Falo da Fajã das Galinhas, quinze minutos até ao Funchal, de carro, mas hora e meia da fajã até à estrada, hora e meia, por caminhos de levadas, bordas de montanha até chegar ao pequeno povoado que parece estar ao alcance da mão, visto da estrada. Parece mesmo logo ali. Mas não é, não para quem tem que caminhar em grupos de quatro homens, segurando cada um sua ponta do cobertor que carrega o doente, quantas vezes morto a meio do percurso. Para quem tem de carregar frigoríficos, bilhas de gás, arcas, mobílias, armários, camas e tudo o resto que por lá não nasce, sempre pelos caminhos de meio metro, sempre uma horinha, se for leve. O que vos conto não me contaram. Vi. Estive lá, passei um dia inteiro a ouvir tristezas e mesmo assim a ver sorrisos de gente boa, apenas gente, como eu. Como esta porto-santense que ontem, dia do namoro por excelência, pariu uma nova paixão a bordo de um Aviocar da Força Aérea ainda antes de chegar à Madeira. Porque ninguém nasce em Porto Santo.
2 comentários:
Mas não é qualquer um que se pode gabar de ter nascido no céu.
Rui, uma das minhas aflições é essa: o que não é vila pelo menos já não vê ninguém nascer-lhe lá. Na maior parte das ilhas dos Açores já não nasce ninguém. A última criança que nasceu na Maia já tem uns quinze anitos, e foi porque nasceu no carro de praça, a trezentos metros de casa, naquela travessa que continua, do outro lado, a que fica em frente da igreja. Antes dela, fora uma sobrinha minha, que já tem vinte e sete anos, mas foi mentira. O meu cunhado registou-a como tendo nascido na Maia, perante a desconfiança da senhora do registo, porque ele não queria que a filha fosse de S. José de Ponta Delgada.
Enviar um comentário